Newsletter

Receba informações via e-mail

Des-inscrever    



Artigos

O Meu Pequeno Lugar
17/03/2012 00:00:00

Certo dia, há alguns anos, eu andava pelas ruas de Londres com minha família. Já havia viajado boa parte da Europa, conhecia praticamente todo o Brasil e alguns países da América do Sul. Todavia, foi em Londres que encontrei o sentimento de familiaridade. Tamanha era a familiaridade que andava pelas ruas sem mapa, sem um guia. Fato que causou estranheza, primeiro à família, depois em mim. Por que tamanha familiaridade?

Agora, escrevendo este artigo, encontro-me na sala de minha casa. Laptop ao lado teclado no colo, cadeira de fio, ouvindo música, cheiro leve de incenso, acabo por me estranhar quando falamos de espaço, tempo e, por fim, ambiência. Como sou cego, a familiaridade com meu espaço ou ambiência dá-se por três vias: sensória e tátil (os móveis do local), olfativa (os cheiros do ambiente( cada espaço tem seu cheiro próprio independentemente da higiene do local e dos produtos que usamos para limpá-lo) e, por fim, os sons (a sonoridade ambienta e delimita o espaço mais que as paredes e a decoração). O reconhecimento do espaço depende da capacidade de percepção , da afetividade, da capacidade de identificação.

Hoje, um dos caminhos mais ricos para a psicologia é o estudo da ligação entre os "invisíveis" da vida, a subjetividade e os fenômenos ligados a adaptação em suas potencialidades. Na vida louca que levamos, quanto maior a capacidade de adaptação de uma pessoa, maior será também sua chance de obter sucesso. Isto ocorre pelo grau de mutabilidade de instituições, emprego, identidade, valores culturais, mercados, tecnologia. Tudo muda com extrema facilidade e agilidade.

Todavia, o estudo dos aspectos do imaginário, da subjetividade não conseguem sustentação quando partem de uma visão positivista e ou reducionista. Impossível estudar os fenômenos dos desdobramentos dos estados alterados de consciência, fenômenos como a intuição, ambiência, empatia, a percepção do inconsciente, a criatividade ou a motivação  presos a objetos parciais reduzidos pela academia. Especialmente por que em tais estudos devemos lançar mão da física, antropologia, matemática superior, mostrando que os fenômenos observáveis de forma subjetiva não passam de deslocamentos energéticos manifestados na mente humana. Energia sutil e seus desdobramentos.

A guerra psíquica entre o novo e o comodismo é o problema da adaptação do indivíduo ao espaço, sobretudo pelo sentimento territorialista advindo da nossa cultura capitalista e materialista, na qual tornamos o espaço e seus objetos nossa propriedade. Sentimento de propriedade que doravante é o foco deste artigo e o cerne da questão. Minha cadeira, sala, tapete, casa, som, tudo gira na cabeça no sentimento espacial do meu lugar, meu espaço.

Sentimento recheado de impressões e afetividade. Tudo demarcando meu pequeno lugar e rituais diários, que chamamos hábitos. A energúmena da faxineira muda meu pendrive de lugar, sem aviso prévio! Quem ela pensa que é para fazer isso?

O sentimento de posse é tão interessante que até logradouros públicos tornam-se nosso ambiente. Uma praça de alimentação, a calçada do quarteirão, a rua do bairro, até o penico do vovô que está na casa da tia faz parte de algo invisível territorialista que temos instintivamente em nós e que nos demarca. É meu, faz parte de minha história.

O fenômeno desdobra-se tanto que nossos políticos tornam o bem coletivo, as riquezas da nação em patrimônios privados. O dinheiro do outro, da nação é propriedade privada da corrupção. E graças ao aval do Judiciário as farras da impunidade continuarão eternas nas terras em que a lei é feita apenas para manter a impunidade, a corrupção ou fingir que um dia existirá moralidade. Novamente o Supremo voltou se contra nós!

Ambiência e territorialidade misturam-se na percepção de tempo e espaço em tudo de nossas vidas. Formatam nossa identidade, memória, desejo e expressão. Existe uma rica sobreposição entre os territórios reais e os imaginários, e diariamente fazemos uma mistura. Quantas coisas que não são nossas e delas tomamos posse?

Lembrei-me de uma antiga paciente indignada. Na frente de seu prédio existia uma árvore onde habitavam vários passarinhos. Muitos faziam seus ninhos em sua copa frondosa. Certo dia o dono do terreno resolveu que derrubaria a árvore, que devia ter mais de 200 anos, para ali fazer um novo edifício. Mas a vista da janela de minha paciente não seria mais a mesma. Diariamente ela namorava a árvore e os pássaros, algo que já fazia parte de sua história há 23 anos. Quem o dono do terreno pensa que é para derrubar minha árvore? Perguntava.
 

Comentários

Comentários são muito bem-vindos, por favor, poste o seu! Iremos avaliá-lo e sendo um comentário construitivo publicaremos ele aqui junto ao texto.

Nome:

E-mail:

Texto:


Recomendação

Se gostou do texto que acabou de ler, talvez queira recomendá-lo a algum conhecido. Use o formulário abaixo para fazer isso facilmente.

Seu nome:

Seu e-mail:


E-mail #1:

E-mail #2:

E-mail #3:

E-mail #4:

E-mail #5:

Al. Paranã, Qd. 128, Lt. 18, nº 1203, Setor Jaó, Goiânia  |  Cep: 74673-050  |  Fone: (62) 9 9187-5157  |  contato@olhosalma.com.br

 

Desenvolvido por:

LOBO's NET - www.lobosnet.com