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Artigos

Intuição
08/03/2012 16:30:00

Dos aspectos subjetivos da psique humana, um dos que mais me atraem é a intuição. Intuição que nos remonta a estados alterados de consciência, a subjetividade humana, a capacidade mental inata do ser humano que transcende tempo e espaço relatividade mental aplicada. Porém, como todo aspecto altamente subjetivo, a intuição foi renegada pela ciência, mistificada e abandonada pelo positivismo das universidades. Estudar intuição não é científico, dizem acadêmicos.

Venho me debruçando como pesquisador na saúde mental sobre essa temática há 20 anos. Uma curiosidade que se iniciou na juventude. Na adolescência, quando iniciei minha carreira de músico, chamou-me a atenção um tipo de estilo peculiar, o improviso. Nas artes, sobretudo na música, a intuição alia-se à criatividade na execução de improvisos, que vinham da tradição do jazz, blues e que navegavam pelo rock progressivo. Sentir o ambiente, a energia, ser criativo, saber aliar frases-tema da melodia com algo novo, diferente, sentindo pelo olhar, até sem olhar os outros músicos. Como toquei em banda de baile muitas vezes tínhamos de tocar coisas que não estavam no repertório. Quando improvisamos, temos de manter uma atenção redobrada, uma "antena ligada" nos colegas, na harmonia. É uma arte de adivinhar, de criar sintonia com o ambiente e com as pessoas à volta. Desdobramento de consciência é apalavra-chave. É um dos mecanismos para aflorar a intuição.

Outro fator que aguçou minha ligação para perceber a intuição começou quando perdi a visão em 1992 devido a um problema de retina. Fiquei dois anos passando por um processo de adaptação. Viver outra realidade, andar, comer, vestir. Como já era músico, tinha o sentido da audição aguçado. E foi convivendo com outros deficientes visuais que percebi o quanto estes usam da intuição nas coisas mais simples. Em 1998, o que abordo aqui virou minha tese de pós-graduação e depois meu primeiro livro, “Tirésias”.

Os cegos usam a intuição como forma de percepção do universo. A intuição dos deficientes visuais tende a manifestar-se mais em seus sonhos. Sonhos de cegos representam uma capacidade de formar imagens por outros sentidos. A intuição, neste sentido, entra como uma forma ampla e intensa de apreensão de ambientes e situações, aprendizado que se dá por estados alterados de consciência.

Estudei as pessoas que nasciam cegas e seus sonhos por quatro anos. Aliando a criatividade à percepção sutil de nossa consciência, analisamos como se construía a formação das imagens mentais por outros meios de percepção. Apresentei este trabalho no segundo Congresso Latino-Americano de Psicologia Analítica e, depois, tornou-se capa da revista “Viver – Mente e Cérebro”, com o título "Sonhos arquetípicos de deficientes visuais".

Por fim, o destino me levou a trabalhar com a Dra. Nise da Silveira, e acabei estudando C. G. Jung. Fiz estágio com ela no Rio de Janeiro. Atuo na área de saúde mental com pacientes psiquiátricos há 15 anos. Lido diariamente com pacientes em crise. Com o tempo, fui percebendo que muitos desajustes sociais devem-se ao fato de pessoas terem intuição, muita sensibilidade e não saberem como lidar com isto, o que torna-se um problema grave. Sensibilidade ou intuição demais sem ser canalizada corretamente vira um problemão, principalmente pelo fato de um indivíduo que tem intuição na maior parte das vezes não entender o fenômeno. Muitas vezes acha que está ficando doido. E se a própria pessoa sente isso, imagine a sociedade.

A intuição tem sido estudada há mais de dois séculos, e quem mais a estudou foi Jung, que colocou essa faculdade como uma função psicológica responsável por parte da percepção humana, uma forma de apreensão do universo, um modo de captar mensagens ligando o mundo exterior a psique. Em sua obra “Tipos Psicológicos”, de 1928, Jung aprofunda a temática mostrando que a intuição é um dos atributos da consciência, uma de suas funções ligadas a percepção, um desdobramento cognitivo.

Muita gente estereotipou a intuição como algo *sui generis*. Todavia, à medida que estudamos e vivenciamos a intuição, percebemos que é extremamente comum. É latente, por exemplo, nos grandes homens de negócio. O chamado tino ou faro comercial exemplifica a manifestação.

Uma das características básicas da intuição é que ela não é controlada. Ocorre no homem de forma independente. Você pode estudar sobre a intuição a vida inteira, mas se você não tiver esse dom não o vivenciará. E cada um tem intuição de uma forma específica.

Alguns desenvolvem o dom de premonição (antever o futuro), outros a sinestesia (sentir a energia de ambientes, pessoas, eventos). Existem vários tipos e ainda temos muito a estudar.

A intuição coloca em cheque a teoria de Freud da libido especialmente pelo fato da intuição operar de forma espontânea e livre, um complexo autônomo na psique. A vontade, o desejo são inoperantes durante o fenômeno da intuição.

Os pacientes psiquiátricos em estado alterado de consciência, os que têm fobia, os que têm transtorno de pânico, os que têm esquizofrenia, em uma boa parte tem este tipo de ocorrência. Isto porque quando entram em estados alterados de consciência ou quando desdobram sua percepção, conseguem antever fatos, sentir coisas e objetos mesmo sem estar próximos a eles. Sua intuição mais desenvolvida está no ato de percepção de pessoas e objetos.

Tive uma paciente que padecia de fobia de gatos. Assim que ela entrava em meu bairro, dizia quantos gatos tinham ali e apontava os que já haviam sentido sua presença. Isto em um raio de mais de 10 quilômetros quadrados. Assim a intuição tem seu lado bom e seu lado ruim. O lado ruim por exemplo está na percepção desdobrada de objetos fóbicos como por exemplo, as baratas, aranhas e outros insetos. A intuição torna-se um caminho de percepção do mundo e das coisas à nossa volta, coisas que passam despercebidas pela maior parte das pessoas. Um paciente com fobia é um exemplo de como um indivíduo usa de sua intuição, só que de forma negativa.

Posteriormente descobri que os melhores terapeutas e médicos são os intuitivos. Na área de saúde muita gente usa a intuição como instrumento de trabalho, aliado ao saber técnico, para complementar diagnósticos, para fechar o quadro de um paciente. É o que diferencia um profissional técnico de quem tem um dom para curar. O fenômeno sorte ou visão diagnóstica tem esta graça.

Por fim, nos últimos anos, conheci benzedores de cobra. Matutos, gente sem estudo, cultura, que vive no meio do nada. Foi um dos trabalhos que desenvolvi que mais me chamaram a atenção. Às vezes eu mesmo tinha dúvidas sobre a característica da subjetividade e ou do sugestionamento da intuição.

Porém foi no meio dessa gente mais simples, que vive no meio do mato no interior de Goiás, que vi que o fenômeno da intuição é muito arcaico. Os benzedores do interior são, em verdade, pessoas que leem as energias do universo, das pessoas, usando uma percepção diferenciada que todos nós temos, mas que nossa cultura e civilização não nos permitem desenvolver como as pessoas humildes desenvolvem.

Em contato com índios e com os habitantes do mato, caboclos, percebi que estes que são pescadores, caçadores, usam naturalmente o seu dom para sua sub-existência. Como saber o local da caça? Se o dia vai dar peixe ou não? Se o local da pesca é bom de peixe? A inexistência de uma lógica é o fato científico. Por mais que perguntemos a um ser desses, ele não saberá responder. A resposta é "senti". Entrevistei, em uma pesquisa que fiz por conta própria, três benzedores de cobra. Eles são caboclos, normalmente católicos não-praticantes que vivem no meio do mato em Goiás, Mato Grosso e na região Norte do país. Quando uma fazenda tornava-se infestada por serpentes e o gado passava a ser picado por cobras, os antigos chamavam os benzedores de cobra, que benziam o animal "ofendido" (picado), que não morria, e por orações que faziam limpavam o local das serpentes.

E o mais interessante é que eles diziam a índole das cobras lendo a energia do espaço. Diziam se a cobra era boa ou má. Na primeira vez que ouvi um relato assim, questionei toda ciência que havia estudado. Coletei vários relatos de fazendeiros de uma região de Goiás que falavam da realidade e do poder dos benzedores de cobra e de sua eficácia. Lembrei-me dos índios pataxós e de sua dança da chuva. E questionei: quem de nós é primitivo? Por que nunca li isto antes em local algum?

Perguntando ao sr. Raimundo, um matuto benzedor de cobra , o que era cobra boa, ele respondeu: "Fio, que nem tem gente ruim, tem animar ruim, tem bicho (cobra) que mata só pra cumê, tem otra que mata pelo prazê de vê o gado caí. Estas nóis dá um jeito".

Sentir a índole de serpentes em uma propriedade com mais de 30 alqueires foi um dos maiores impactos que vivenciei. Relatos coletados mostraram o poder dos benzedores. Pessoas que não cobram pelo seu serviço. Benzedor não pode cobrar. Um dia tornaremos toda nossa vivencia nesta área em um livro.

A intuição nas pessoas simples é comum e, quanto mais urbano é o ser humano, quanto mais distante ele estiver do contato com a natureza, mais longe ficará da intuição. Os estímulos da cidade dificultam a introspecção. A vida urbana é inimiga das percepções sutis.

Mesmo assim, usamos a intuição nos rituais de acasalamento, na paquera. Quantos atributos do caráter alheio tentamos imaginar? Quantas coisas tentamos adivinhar? Ela vai estar lá? Com que roupa? Vai querer falar comigo? Lá está a intuição tentando mapear as futuras ocorrências, tentando captar as possibilidades, ela vive no flerte, na troca dos
olhares. Também está nas decepções amorosas, nos prenúncios do “não quero ir à festa por que sei que minha ex vai estar lá”.

A intuição faz parte de nossa vida na música, nos negócios, nos relacionamentos interpessoais, nas artes, na sub-existência. Afastamo-nos dela pelo movimento da ciência positivista. Por se tratar de um fenômeno subjetivo, ligado a energias sutis, a intuição passou a ser vista pela ciência como crendice ou especulação sem crivos científicos. Porém, foi a partir de 1940, nos estudos da física quântica, que a ciência começou aos poucos a abrir espaço para estudar este tipo de vivência, especialmente quando quer se debruçar na arte dos negócios buscando apreensões e tendências futuras de mercado. Se intuição virar dinheiro, a ciência poderá estudá-la a fundo.

Por último, o único campo social que aceitou a intuição foi a religião. Católicos e protestantes falam sobre os dons proféticos. Espíritas e espiritualistas versam sobre mediunidade. Todos aceitam o fenômeno, que apenas muda de nome, dependendo da corrente religiosa. Na ciência da religião, o nome usado era a mística. Místicas eram as pessoas que tinham contato direto com Deus. Eram os profetas ou os sinestésicos.

O comum típico e atípico da natureza humana não pode nem deve ser descartado do estudo da psique. É impossível falar de motivação ou de criatividade sem falar de intuição. Não se pode mais falar sobre aumento de vendas e de tendências de mercado sem esbarrar na intuição. Este é apenas um resumo apresentado à equipe do programa “Globo Repórter”, que aborda minhas pesquisas sobre intuição. Logo, voltarei ao tema.
 

Comentários

jucinelio
18/05/2015 22:38:48

Otimo,muito verdadeiro dr.obrigado

rejane
06/02/2015 13:20:38

ENQUANTO LIA O TEXTO POR VARIAS VEZES PARECIA UMAS DE MINHAS CONVERSAS INTERNAS,POIS NÃO FAÇO NADA DE IMPORTANTE OU ATE MESMOS COISAS MAIS SIMPLES SEM ME CONECTAR COMIGO MESMA E SEGUIR O CAMINHO DA INTUIÇÃO,NAS POUCAS VEZES QUE NÃO SEGUI OS RESULTADOS FORAM MUITAS VEZES BEM DESAGRADAVEIS,MAS REALMENTE PARA ISSO PRECISO DE MOMENTOS DE QUIETUDE E DA NATUREZA POR PERTO ELA É MEU SUPORTE.ACREDITO QUE HAVERÁ UM TEMPO EM QUE A INTUIÇÃO SERÁ UMA FERRAMENTA IMPRESSINDIVEL NA NOSSAS VIDAS...NA MINHA JÁ É....

Leandro Silva
04/12/2014 09:22:56

Excelente explanação!! A intuição realmente foi/é taxada como estigma pelo (extremo) positivismo científico.

Percebemos em qualquer locus (trabalho, estudo, família etc)a diferença de pessoas que lançam mão da intuição para deixar vir quem realmente são. Colocam o coração no que fazem e, com isso, conseguem ir fundo nos seus intentos e dentro de si mesmos.

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