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O inocente e a Varejeira
Por Jorge Monteiro de Lima em 02/10/2008 Quando criança, lá pelos meus 10 ou 12 anos na praia pelas bandas do sul de São Paulo, gostava de ficar observando o vôo das varejeiras, estáticas e coloridas no ar. Às vezes ficava horas com um pequeno pedaço de pau tentando acertá-las, em vão. Em minha inocência não sabia que as varejeiras procriavam e viviam boa parte de suas vidas no excremento, nas fezes, nas bicheiras. E os vermes surgiam dos ovos, viravam varejeiras e voavam... Uma realidade regional com características de problema universal... Em Goiânia, dezoito vereadores votam uma lei que aprova 13º, 14º e 15º salários, na tentativa de se resentearem, durante o período eleitoral, com um generoso aumento. O prefeito ainda tenta anular vetando o projeto, mas por uma astuta armação dos vereadores o veto do prefeito é quebrado e o projeto acaba sendo aprovado, em uma manobra extremamente impopular. A imprensa finalmente desempenha seu papel de fiscalização social e denuncia o absurdo proposto por uma parte dos legisladores, e por fim o Ministério Público acaba com a festa, colocando ordem no cabaré de cego que havia virado a Câmara Municipal. Lembrei-me das varejeiras de minha infância. Um dia, perto de um canal atrás de um lote baldio, descobri uma colônia de vermes que se deliciavam em um farto banquete em cima de um naco de fezes. Aqui em Goiânia, o melhor ainda estava por vir. Dos dezoito vereadores que votaram a favor do aumento de mais três salários anuais para si mesmos, dezessete são candidatos à reeleição. Os jornais não perderam tempo e estamparam as fotos desses nas principais páginas, e a Internet e as emissoras de rádio assumiram o restante da tarefa. O penico transborda e voa mosquitos para todos os lados. Então começa o coro das lamentações: "Fui manipulado"; "Colocaram meu nome na votação sem minha autorização"; "Foi uma armação contra minha pessoa"; "Minha assessoria não havia me informado sobre o que estava sendo votado naquele momento"; "Mudaram na última hora o projeto de lei original e me induziram ao erro". Tão inocentes coitadinhos... Varejeira que presta tem de ter as dimensões de seu destino. Posteriormente aprendi que elas são responsáveis por boa parte da decomposição na natureza. Digerir a produção do "quarto olho", reciclar as fezes alheias... O que ocorre em uma determinada capital não é mais um fato isolado. É a representação do formato de nossa sociedade. Hoje em dia legisladores não têm visão de futuro, sequer consciência de seu papel social, de suas responsabilidades e atribuições. Nossa política deixou de ter uma conotação pública e hoje se resume a uma gigantesca privada. Indivíduos querem a vida pública apenas visando o enriquecimento, o dar-se bem, o estruturar-se em algo passageiro, em um "emprego" de quatro anos. E quando tais legisladores fazem a asneira tornar-se pública, quando chutam o penico repleto, ainda têm a pretensão de crer que toda a sociedade é feita de idiotas, de imbecis, que vão acreditar em suas estúpidas desculpas. Virou rotina crer que a sociedade, os cidadãos são indivíduos sem cultura, sem visão, são idiotas manipuláveis. Rotina baseada na falta de observação da evolução social que hoje cobra. Um legislador deve, no mínimo, conhecer o que está votando. Deve ser um indivíduo de personalidade e não um tolo manipulável. Um legislador deve ter assessores inteligentes, capazes de o orientar em sua dificuldade. Um legislador deve viver e pensar na coletividade e não apenas em sua própria vida. E o pior: um legislador que faz nossas leis deveria no mínimo conhecê-las, até para não votar em absurdos. Mas varejeiras não pensam, não planejam, querem apenas a vida instintiva, as regalias de um farto banquete na privada alheia... Resta no ar as dúvidas: Por que tornou se hábito em nosso país políticos acreditarem piamente que a população é imbecil? Por que mesmo com isto tudo ainda persistimos em reeleger tais arautos da canalhice? Quem sabe um dia um adivinho consiga decifrar o mistério! |
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