O
amor que virou ódio
Por Jorge Monteiro de Lima em 01/07/2008
"Bandido, vagabundo, canalha! Só
queria me comer!", diz, irritada. "Eu sabia que ele não
prestava, que era ordinário", continua resmungando.
"Foi o pior homem que tive nesta vida", atesta. "E
pensar que dei para ele os melhores anos da minha juventude"."Que
ódio! Acho que não vou me perdoar jamais por ter vivido
com ele por cinco anos". "Tão ordinário,
tão vagabundo que até jurou que nosso amor era eterno".
Recebi, há alguns dias, uma carta
com teor semelhante ao descrito acima, de uma mulher religiosa que
dizia abertamente que cultivava, já por oito anos, ódio
por seu ex-companheiro. Homem com quem se deitou diariamente durante
cinco anos, cinco anos fazendo amor, chamando de bem, andando de
mãos dadas, convivendo e trocando afinidades. Somados mais
dois anos de namoro, totalizando sete anos de convívio. Depois,
com a separação, mais 8 anos de raiva e ódio,
chegando a 15 anos de energia psíquica desdobrada em
um eixo afetivo amor-ódio.
Após esta relação ela
nunca mais encontrou coragem para ter outro envolvimento. O cidadão
"acabou" com sua vida, a arruinou, a destruiu quando se
foi.
Agora, todos os homens são vagabundos e
ordinários, todos da mesma raça, resmunga a mulher.
No ciclo dos relacionamentos afetivos relações
têm início, meio e fim. Quando tem poder de renovação,
são eternas. Ninguém faz um relacionamento sozinho,
tampouco decreta sozinho o fim de uma união.
Em uma sociedade de consumo em que relações
fulgazes tornaram-se freqüentes, a tolerância mínima,
a imaturidade afetiva ampla, a busca de prazer intensa, neste universo
egoísta em que vivemos, tornou-se comum encontrarmos pessoas
separadas com mais de um casamento. Estudos estatísticos
apontam que até 2020 será comum indivíduos
terem em média dois casamentos ao longo de sua vida. Em um
campo social de desunião, o ódio entre ex-companheiros
(namorados, noivos, casados e ou em outro tipo de vínculo
afetivo intenso), este ódio torna-se um problema na vida
social contemporânea, chegando a homicídios, vias de
fato, calúnia, difamação, dentre outros problemas
graves.
O amor que vira ódio resume-se a uma
situação afetiva mal-resolvida, expressando especialmente
dois tipos básicos de situação:
A) Negação- Através
da raiva, da paixão que existe e que não consegue
ser apagada;
B)Revide- Vontade de vingança por não
tolerar uma recusa, baixa tolerância a frustração, os
antigos chamavam isso de orgulho ferido.
A afetividade de um indivíduo que
fala mal de alguém com quem viveu é tão intensa
que acaba se voltando contra a própria pessoa. No exemplo
anterior podemos fazer um questionamento: se o indivíduo
era tão ordinário, tão vagabundo, por que é
que a referida dama religiosa ficou tanto tempo com ele?
O ódio mina qualquer chance de o indivíduo
superar o fim de um relacionamento. Cristaliza a vida de quem odeia,
enquanto seu ex refaz sua própria vida aumentando ainda mais
a raiva de quem ficou para traz. E o pior de tudo: quem expressa
abertamente seu ódio não percebe que este acaba atestando
sua imaturidade afetiva, deixando evidente uma paixão recolhida,
o despeito. Falar mal de um ex-bem é o mesmo que falar mal
de si próprio. É cuspir no prato que comeu!
No ódio o indivíduo não
perdoa seu próprio passado, tampouco a si mesmo. Nesta prisão,
porém, não foge de sua própria consciência.
Não foge dos sonhos com seu amor. E, reverberando o ódio,
se havia uma chance de retorno... adeus!
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