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01 Apresentação parte 1

Por Jorge Monteiro de Lima em 08/02/2007

Jorge Antonio Monteiro de Lima
Filhos do Silencio
Apresentação

Tristeza

"Eu amo a noite quando deixa os montes
Bela, mas bela de um horror sublime
E sobre a face dos desertos quedos
Seu régio selo de mistério imprime

Amo os lampejos, verde-azul, funéreos
Que às horas mortas erguem-se da terra,
E enchem de susto o viajante incauto
No cemitério de sombria serra

Eu amo a noite com seu manto escuro
De tristes goivos coroada a fonte
Amo a neblina, que pairando ondeia
Sobre o fastígio de elevado monte

Amo nas plantas, que na tumba crescem
De errante brisa o funeral cicio;
porque minh'alma, como a noite, é triste,
Porque meu seio é de ilusões vazio

Amo o silêncio, os areais extensos,
Os vastos brejos e os sertões sem dia
Porque meu seio como a sombra é triste
Porque minh'alma é de ilusões vazia

Amo o furor do vendaval que ruge
Das asas densas sacudindo estrago
Silvos de bala, turbilhões de fumo
Tribos de corvos em sangrento lago

Amo ao silêncio do ervaçal partido
Da ave noturna o funerário pio
Porque minh'alma, como a noite, é triste,
Porque meu seio é de ilusões vazio

Amo a tormenta, o prepassar dos ventos
A voz da morte no fatal parcel;
Porque minh'alma só traduz tristeza,
Porque meu seio se abrevou de fel

Amo o corisco que deixando a nuvem
O cedro parte da montanha, erguido,
Amo do sino, que por morto soa,
O triste dobre n'amplidão perdido

Amo na vida de miséria e lodo,
Das desventuras o maldito selo,
Porque minh'alma se manchou de escárnios,
Porque meu seio se cobriu de gelo

Amo do nauta o doloroso grito
Em frágil prancha sobre mar de horrores
Porque meu seio se tornou de pedra,
Porque minh'alma descorou de dores

Como a criança, do viver nas veigas
Gastei meus dias namorando as flores
Finos espinhos os meus pés rasgaram
Pisei-os ébrio de ilusões e amores

Tenho um deserto de amargura n'alma
Mas nunca a fronte curvarei por terra
Tremo de dores ao tocar nas chagas
Nas vivas chagas que meu peito encerra

A paz, o amor, a quietação, o riso
A meus olhares não têm mais encanto,
Porque minh'alma se despiu de crenças
E do sarcasmo se embuçou no manto"

Fagundes Varela

Apresentação

Samba Em Feitio De Oração.

O tema da marginalidade e da vida dos que são entregues ao sistema prisional é muitoárido. Quando nos remetemos ao tema é como olhar um abismo sem fundo, no qual estãodepositadas nossas mais sombrias e dissociadas partes. Isto se deve ao fato de que, se porum lado nós, que pertencemos ao convívio social dentro das normas e leis nos sentimos
distantes; por outro lado, sentimos um arrepio quando percebemos que este abismo habitanossas próprias almas. Carl Gustav Jung afirma que se há algo errado com a sociedade, há algo errado com as pessoas; se há algo errado com as pessoas, há algo errado comigo!

Embora o autor prime por não recorrer a explicações psicológicas, elas nos servem deescafandro para podermos descer nestas profundezas obscuras da vida e, apesar disto, é possível manter a sensibilidade aberta para que se compreenda, um pouco melhor, este vale sombrio.

Segundo a teoria da socialização, o processo de aquisição de crenças e valores mais importantes para a inserção social adulta é a socialização primária. Por definição este processo ocorre na infância, desde o nascimento, quando a família passa para a criança crenças e valores culturalmente aceitos. Estes elementos constituem-se nas "regras do jogo
social", que o indivíduo deverá assimilar para jogar o jogo da vida em sociedade.                                                                                                         Nestas regras existem deveres e punições estabelecidas, bem como afetos e sentimentos ligados à valores como honestidade, respeito às regras e ao outro, limites de ação pessoal, busca de realização profissional e de status, valores familiares, morais éticos e espirituais.

Como a socialização primária é um processo baseado na estrutura familiar e nos valores que esta família vive e passa para os filhos, depende da existência de uma família com estes valores. Esta condição nem sempre é garantida, independentemente da classe social e econômica. Famílias desestruturadas ou ausentes, e com um conjunto de valores sociais
falhos existem em todas as classes sociais, o que diferencia é o campo de ação de seus filhos. Famílias mais ricas podem originar empresários e políticos corruptos, famílias mais pobres, marginais.

As narrativas que esta pesquisa traz evidenciam a falha na socialização primária, precisamente em função da desestruturação familiar. No entanto outro aspecto é apontado nas narrativas, a questão da diferença social. Muitos vêem um mundo repleto de glamour pela mídia e se perguntam: por que não tenho direito a esta vida? Alguns tentam trabalhar para chegar ao ideal de fartura das novelas, mas jamais conseguirão chegar a este ponto.  E logo descobrem outro caminho mais fácil para atingir seu objetivo. Utilizamos a expressão "mais fácil" não no sentido de que o trabalho é duro, pois as atividades criminosas exigem esforço, habilidade e conhecimentos tanto quanto qualquer trabalho, às vezes até mais.
Torna-se uma via mais fácil porque é a única saída que se apresenta no universo de muitos.

Na sociedade grega antiga as pessoas eram claramente divididas em dois planos, os homens livres, cidadãos, que se dedicavam às artes, à filosofia e a atividades intelectuais.
Por outro lado os escravos, artesãos e guerreiros, dedicados ao trabalho braçal e que não possuíam nenhuma instrução. No período do Brasil colônia, até o final do século XIX, havia os senhores, os comerciantes, os artesãos e os escravos. Na cultura hindu ainda temos o sistema de castas. O que mantinha a sociedade grega, a hindu e o sistema escravocrata
sem maiores problemas era o processo de socialização em que os indivíduos aceitavam esta diferenciação sem questionamentos muito sérios.

No entanto, os relatos apresentados nesta pesquisa apontam para uma realidade diferente.
Em nenhum momento nossa sociedade deixa claro que certas possibilidades e riquezas não são para todos. Pelo contrário, somos instigados a ter coisas porque podemos tê-las. Aliás, esta é uma idéia básica de um sistema de oportunidades iguais para todos. No entanto
sabemos que isto não é verdade. Não há oportunidades iguais para todos! Para muitas pessoas, não adianta estudar ou trabalhar muito, pois dificilmente chegarão a mudar de classe social e ter um aumento significativo em seu ganho econômico.

Apesar disto, o engano social é assimilado por muitos que vão buscar estes bens da cultura por vias marginais. O assédio do consumo gera o desejo intenso de ter o conforto social, no entanto como ocorre falhas no processo de socialização, a busca destes confortos não são norteadas por valores estruturantes. Por outro lado, o direito de todos é imposto à sociedade através de meandros sombrios.

Surge a questão de seguir pelo "caminho do mal", através do crime e da violência, das drogas e da loucura. Seriam estes elementos do mal, ou sintomas de um Mal maior? Se pudermos entender estes elementos como sintomas do Mal, onde ele estaria. Vamos pensar em outra definição para Bem e Mal, como princípios progressivos e regressivos.                   Nestes termos vamos esbarrar em definições de moral e ética. Por exemplo:  para muitos abortar
um filho indesejado, o qual não se tem condições de criar adequadamente é uma maldade.
No entanto manter políticas econômicas que conduzem milhares de crianças à morte por fome e doenças na África é uma conseqüência da vida. O princípio regressivo, e, portanto destrutivo, está nesta mãe que aborta consciente de suas responsabilidades, ou está nas questões sócio-político-econômicas? O Diabo está mais interessado em destruir a
humanidade como um todo do que um indivíduo em particular.                Os indivíduos são tomados no vórtice do redemoinho cultural autofágico.

Seguindo esta linha de pensamento, a cela deveria ser como a do monge, lugar de meditação e recolhimento para auto-análise de seus atos.     Avaliar e compreender o inadequado em si mesmo ajuda a redenção do pecador. Em um mosteiro isto é possível, pois há um conjunto de valores introjetados anteriormente: a doutrina cristã do amor.
Quando estes valores não foram introjetados, de nada adianta a cela, pois o indivíduo irá avaliar seus atos com base em quê? Quando a vida é repassada, a conclusão a que se chega é que ainda se fez pouco, e na oportunidade da liberdade, fará ainda pior!

Podemos pensar em dois caminhos. Primeiro: quando a socialização primária foi adequada e o indivíduo conhece o mal mais tarde como possibilidade de atuação criminosa.
Segundo: é quando este processo não ocorreu adequadamente e o indivíduo viveu no mal como sintoma de uma sociedade obtusa em seus valores. Nesta situação não adianta tentar formar o que deveria ter ocorrido na infância, mas o indivíduo deverá ampliar sua visão do
mundo, da sociedade e de si mesmo para além do bem e do mal cultural. Deverá conhecer o mal em sua essência regressiva, para além do sintoma de si mesmo.

Chegamos à questão da reabilitação. O resgate do inferno só é possível com uma ampla conscientização dos fatores culturais e sociais que se expressam na vida do criminoso por si mesmo. Tomar consciência do Mal como princípio mais amplo e que o indivíduo criminoso é parte deste teatro macabro, assim como todas as demais pessoas, é a chave para a saída da
influência nefasta de nossos dias, seja na criminalidade ou no terrorismo. Neste sentido os procedimentos de reabilitação são suportes necessários, porém, em um âmbito maior, ineficientes, pois não se conseguirá resgatar plenamente o que a socialização primária deveria ter feito e por outro lado, o contexto social é o mesmo de quando o indivíduo optou pela via criminosa.

Reabilitar o criminoso é levá-lo a compreender o contexto social mais amplo, as condições sócio-econômicas que lhe ofereceram a única saída possível. É perceber que as oportunidades não são iguais para todos. É perceber que embora o indivíduo não tenha condições de consumir ele é instigado o tempo todo para isto, ao custo de perder completamente sua auto-estima. É perceber as crenças discriminatórias e falsas da sociedade em que vivemos. É ver o Diabo de frente.

Reabilitar o criminoso é perigoso demais para aqueles que dominam a sociedade.
De posse do conhecimento, da crítica sobre as estruturas sócio-políticas e da profunda análise do sentido de sua vida no contexto mais amplo, ele se tornará um revolucionário. A verdadeira reabilitação da auto-estima e do sentido de vida pode gerar pessoas extremamente ameaçadoras à manutenção da mentira social, seja por uma visão social mais ampla, seja por uma visão mais espiritual e transcendente do senti do de vida.

José Jorge de Morais Zacharias
Doutor em psicologia social pela USP
Psicólogo e analista trainee pela Associação Junguiana do Brasil AJB/IAAP.
Docente universitário e autor de livros sobre psicologia analítica e tipologia.

        Jorge Antônio Monteiro de Lima é meu colega de profissão. É um grande lutador.
Além da formação e atuação em psicologia clínica, é presidente da OSCIP Instituto OlhosdaAlmaSã, indicado para vários prêmios nacionais por anos a fio,  e  Presidente do Grupo de Apoio em Saúde Mental,  coordenando vários cursos em saúde mental e colaborando com jornais e rádios  na linda região de Goiânia, onde vive. Tendo escrito os livros Tirésias e        O Encontro propõe-se agora a uma abordagem bastante difícil em nossa sociedade nos dias de hoje.
        O autor abandona os meandros árduos e complicados de conceitos psicológicos e passa a falar diretamente não a um público exclusivo, mas sim a toda e qualquer pessoa interessada no contexto das drogas e crimes discutidos com habilidade por ele.
        Despe-se de termos técnicos e específicos de sua profissão de analista e psicólogo e argumenta livremente sobre os prováveis fatores que fazem com que uma pessoa caia na criminalidade e nas drogas, fundamentando-se em depoimentos de pessoas que vivenciaram
esse lado da vida e que se encontram em um presídio no qual Jorge trabalha. Ao abarcar as variáveis de influências na personalidade da pessoa vai desde o fator genético, educacional, constituição familiar, passando para um espectro mais amplo como os fatores sócio-econômicos, religiosos e também políticos em uma sociedade corrupta e impune.
        Discute, ainda, uma justiça duvidosa que pune muito uns, e muito pouco outros, levantando dúvidas sobre quais os critérios em que se baseia essa justiça, considerando-se serem únicas as leis.
        Enfim, queremos agradecer o prestígio que Jorge me proporcionou ao me pedir que apresentasse mais esse seu rico trabalho que brota de suas experiências práticas de atendimento a presidiários e que impregnou sua alma de vontade de extrapola-las a todos os leitores.

    Dra.Cleide Becarini Alt

Dedico esta obra a
Deus sobre todas as coisas
A meu filho Matheus de Araújo Faria Monteiro de Lima
Aos psicólogos da equipe que dedicaram seu tempo ao projeto em prol de uma causa maior:
Fernando, Jamil, Claudia
As terapeutas ocupacionais Amanda e Wania
A todos estagiários,  Marcos, Ludmila Aleixo, Mariana, Ana Carolina,
Aos profissionais que trabalharam discretamente, mas que sem eles o trabalho não seria possível: as psicólogas Marilúcia, Débora; ao agente penitenciário Sr. Sebastião que para nos ajudar "fazia chover em dias de seca;
 Major Anésio,Coronel Lino da equipe de segurança;
 Dr. Edmundo Dias presidente
da Agencia prisional do estado de Goiás, Edson Tadashi diretor da agencia prisional que articulou e foi o visionário de todo projeto ;
Letícia Franco delegada, José Augusto Promotor de Justiça;

A todos meus pacientes e colaboradores do Instituto OlhosDaAlmaSã

 Aos meios de comunicação que nos incentivavam no projeto e trabalho:
Jornal Diário da Manhã e toda sua equipe
Jornal Hoje- Edmar Oliveira;
Rádio Companhia FM Antonio Leal e toda sua equipe
Rádio 730 AM em especial a Kadmous Alassal
Luciano Pires e a toda equipe do portal www.lucianopires.com.br;
Portal Giro da Imprensa e ao acessor Alessandro;
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Jorge Antonio Monteiro de Lima
Analista-Psicólogo clínico pesquisador em saúde mental
email:contato@olhosalma.com.br
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